sábado, 12 de setembro de 2009

Shopaholic, embalagens e conteúdos

Nesta tarde de sábado um pouco melancólica, resolvi assistir um filminho pipoca só para distrair a mente que teima em vagar por pensamentos às vezes não tão agradáveis. Sem preconceitos, assisti à Confessions of a shopaholic. Bobo, sim. Polêmico, talvez. Trata-se da história de uma garota viciada em compras. Especificamente roupas, sapatos, bolsas e acessórios. Rebecca Bloomwood não resiste a uma vitrine. Mas ela não tem grana suficiente para pagar as dívidas que contraiu em seus 12 cartões de crédito. Depois de perder o emprego de jornalista em uma revista de jardinagem, Rebecca fica desesperada para conseguir um novo emprego, desta vez em sua revista favorita de moda. Afogada em dívidas e tendo que mentir para seus credores, Rebecca acaba sendo contratada por uma revista de economia, assunto que até então ela achava que não dominava. Escrevendo para uma coluna sobre finanças muito pessoais, ela acaba gastando o salário inteiro em um único vestido. A partir daí várias situações tragicômicas acontecem até que ela finalmente consegue entender que é viciada em compras e busca ajuda.
Realmente o filme me distraiu, mas também me fez pensar em mim mesma e em várias outras pessoas que conheço. Mulheres viciadas em compras que simplesmente não conseguem ver isso como uma doença, um mal moderno capaz de se igualar ao vício de qualquer droga ilícita em se tratando de estragos psicológicos, financeiros e sociais.

Nunca fui uma shopaholic de carteirinha, dessas que se atolam em dívidas astronômicas. Mas eu sempre via meus planos de uma viagem internacional, uma poupança para o futuro, um curso para impulsionar a carreira se esvaindo a cada passada dos meus dois cartões de crédito. Como Rebecca, eu comprava coisas pela simples vontade de ter aquilo que eu via brilhando em uma vitrine dentro do meu armário. Eram coisas das quais eu realmente não precisava. Mas por que eu comprava?
Quando era criança, meu sonho era ficar trancada no shopping e ter todas aquelas coisas maravilhosas só para mim, pelo menos por um dia. Quando fiquei adulta e totalmente vaidosa, eu queria ter todas aquelas coisas para sempre. Meu primeiro salário eu gastei no shopping. Sapatos, bolsas, roupas... Afinal, eu precisava me vestir bem para a minha nova fase na vida. Várias outras fases depois, o cartão de crédito corria solto entre as diversas lojas do shopping. Para cada ocasião, uma roupa, uma bolsa, um sapato, vários acessórios.
E assim foi até que as faturas dos cartões chegaram a um valor maior do que eu poderia pagar. Desespero total! Promessas e mais promessas depois e um bom (mas injusto) acordo com a operadora do cartão, consegui quitar e cancelar um dos cartões. Ainda tenho outro, mas a meta é quitá-lo também.
A grande questão disso tudo e razão deste post é que por que a nossa vida ficou tão vazia a ponto de termos de preenchê-la com delírios consumistas, verdadeiros vícios que nos levam ao fundo do poço e a gente teima em dizer que não é vício, são só umas "comprinhas". Por que comprar coisas de que você não precisa? Por que ter 10 bolsas pretas? Por que ter um armário de sapatos? Se estou chateada, eu compro. Se estou alegre, eu compro.
Eu tenho um hábito, comum na minha profissão de jornalista e produtora, de, antes de escrever algo, pesquisar a fundo sobre o tema, verificar a opinião dos especialistas no assunto, esgotar todas as possibilidades de argumentos. Porém, em meu blog, nesta válvula de escape virtual, eu não presto atenção ao que os especialistas dizem porque, em se tratando da minha vida, a maior especialista sou eu. Por essa razão, eu tenho as minhas próprias teses sobre os meus assuntos. E a minha opinião para o fato de eu ter quase me tornado uma shopaholic (e ainda ter resquícios disso) é que a ditadura da beleza e do ter, em vez de ser, estava completamente enraizada em minha vida - assim como na de várias outras pessoas.
Por mais que a gente não queira fazer parte dessa sujeira, não há como escapar. Eu quero fazer parte, eu quero ser como todo mundo é. Apesar de levantar a bandeira da originalidade, é praticamente impossível ser uma pessoa completamente original, se tudo o que temos são cópias. Cópias do que vimos nas revistas, nas novelas, nas artes, na tecnologia. Não há escapatória.
Mas há o bom senso. Há uma voz, um suspiro de inteligência que pede para você parar. Pede para você enxergar o mundo com outros olhos. Pede para você se enxergar com outros olhos. Nada é mais importante do que ser. Ser você mesma, uma pessoa única e original entre tantos clones modernos. É difícil se livrar do invólucro. Você acaba se tornando apenas uma embalagem sem um produto dentro. E na tentativa de agradar os outros com a embalagem, o conteúdo vai se esvaindo, até chegar a um ponto em que ele desaparece, e você passa a ser completamente oca. Eu não queria ser só uma embalagem. Eu queria abrir essa embalagem e retirar o conteúdo. Um conteúdo que até então era totalmente desconhecido, camuflado por seda, couro, ouro 18 e algodão.
A cada dia eu descubro mais uma utilidade desse meu conteúdo. Descubro que ele não é tão frágil quanto eu pensava, que não se quebra diante do primeiro tombo, do primeiro fora, do primeiro tapa com luvas de pelica. Tudo bem, ele dá uma balançada, porque às vezes venta. Mas logo está firme, pronto pra outra, porque eu sei que ele não vai me abandonar na hora em que for realmente necessário e admirado. E eu tenho orgulho de carregar meu conteúdo. Ele é mais brilhante que qualquer gloss, mais caro que uma bolsa Prada, mais perfumado que Victoria's Secret, mais valioso que qualquer joia. Ele não fica puído, nem rasga. E estará sempre comigo.

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