terça-feira, 25 de agosto de 2009

Eu tenho medo de ficar blz


Há muito estou com essa ideia fixa de criar um blog. Não que eu queira deixar algo para a posteridade, mas porque tenho que extravasar, mesmo sem ser a Claudia Leitte. Há tantas coisas a serem ditas e ao mesmo tempo tudo já está sendo dito. Eu ando meio desnorteada com tanta informação. Apague o primeiro scrap quem tem tempo, saco e insônia para ler todos os tweets? Quem, em sã consciência, vai ficar trocando de página para ver 1.500 fotos que algum megalomaníaco postou no orkut? Tem gente para tudo.

É bacana esse lance de tudo ao mesmo tempo agora, de todo mundo poder falar com todo mundo, de perder a privacidade... O twitter pergunta o que você está fazendo. E tem gente que responde. "Tô no cagando." Maior barato isso.

Há dois meses minha vida era normal. Eu dormia, comia e andava. Eu só tinha que me preocupar com o orkut e com o email. Quando fui fazer o cadastro para o cartão cidadão me perguntaram se eu tinha twitter. Dei um gibi de presente pra minha sobrinha de 9 anos e ela me perguntou "What are you doing?" De saco cheio de ser considerada uma jovem senhora do século passado, fiz o tal, levei exatamente uma semana para entender o @, o RT, o #FF e já surgiu outra pergunta... "Você tem LinkedIn?", ah porque se você não tem está fora do mercado de trabalho. Fiquei com medo disso aí. Fiz. Achei uma pregada de gente por lá. Confesso que está lá meio parado, esperando uma atualização. Dois dias depois recebi um convite para entrar no Facebook... Não fiz. Ainda.

Quando estudei Comunicação rolava esse papo de McLuhan, de aldeia global. Naquela época, eu não fazia a menor ideia de como seria isso, minha mente não visualizava. O máximo da modernidade era o email do bol, que, só por acaso, eu não sabia usar. Passados alguns (poucos) anos, estou envolvida em tantas redes sociais que já não acredito mais em vida real. Eu tenho realmente mil amigos. Existem 60 pessoas me seguindo. Definitivamente eu posso fazer um retrato falado do batedor de carteira no Central Park neste exato momento.

As coisas estão tão virtuais que eu não sei mais escrever à caneta. Fui tentar essa proeza esses dias e saiu um garrancho, algo entre letra de médico e criança em fase de alfabetização. Se eu quero escrever um bilhete que tenha pelo menos 10 linhas, melhor digitar e imprimir depois (coitadas das arvorezinhas). Fora que não consigo mais escrever um simples "você". É um tal de "vc" pra lá, "blz" pra cá, os 140 caracteres já estão impregnados na (minha) língua portuguesa.

Tecnologia é necessário, compreendo. Mas cada vez mais o lance dos 140 caracteres está invadindo a (minha) literatura. Tem nego escrevendo livro no twitter. Engraçado que tem que ser tudo resumidinho... Para comer uma letra faltava pouco, e não deu outra: "E aí, vc tá blz? Vms p ksa d Ju hj?" Como dizia Regina Duarte, eu tenho medo.

Eu tenho medo da coisa degringolar para a falta de beleza, de poesia... Tem palavras que são bonitas, essas merecem ser escritas por extenso. Crisálida. Acho linda essa palavra. Metamorfose, olha que show; quantas letras! Tem palavras que são engraçadas, como pantomima, pantógrafo. Tem aquelas antigas; de xumbrega a sujismundo. Não dá para xingar alguém de xumbrega e sujismundo no mesmo tweet. Isso me deixa triste.

Não serei uma reacionária da net, mas estou preocupada. O povo está emburrecendo, está escrevendo "anciedade", "miguxa", "abrasso"... Está todo mundo desembestado e embasbacado com o fato de poder resumir tudo em poucas frases, de expor sua vida pessoal como uma celebridade, que não há muito o que dizer afinal. Então eu finalizo com um abs p tds e, no máximo, um até amanhã.

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